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Os três motivos para viver e um lava rápido




Em meio a crise econômica generalizada dos últimos anos, a saída mais utilizada pelos afetados por ela tem sido o empreendedorismo. Se o mercado formal fecha as portas, o próprio negócio é a janela que oferece, além de renda, liberdade para crescer profissionalmente. A tal liberdade, sonho de muitos, passou a ser, em muitos sentidos, a obsessão de Bruno Henrique dos Santos (nome fictício). Depois de passar pelo sistema penitenciário, foi através da educação e criando um novo negócio que ele conseguiu vencer em seu retorno a sociedade.

Bruno foi preso em abril de 2013 por tráfico de drogas. A atividade criminosa foi parte de sua vida desde os 16. Trabalhava em pequenas empresas apenas para manter as aparências e não tinha, até então, pretensão de buscar outros caminhos. Passou pelo CDP de Ribeirão Preto, pela Penitenciária "Valentim Alves da Silva" de Álvaro de Carvalho e pela Penitenciária "Osiris Souza e Silva" de Getulina. A privação de liberdade por si só, no entanto, não foi suficiente.

"Quando você é preso, você não perde só a liberdade, mas também o respeito de muitas pessoas. Mas até então os meus pensamentos ainda eram negativos. O ambiente leva a isso. O assunto era só crime", lembra Bruno.

Com o passar do tempo, a vida no cárcere produziu a vontade de reconquistar a liberdade o mais breve possível. E esta foi a chave para a mudança. Bruno percebeu que precisava se movimentar, organizar os pensamentos e produzir sua própria saída da prisão. Mudou as companhias, se isolou das conversas sobre crimes e voltou pra sala de aula.

Ainda em Getulina, Bruno cursou, no final de 2014, os 10 módulos do Programa de Educação para o Trabalho e Cidadania "De Olho no Futuro", iniciativa desenvolvida e aplicada pela Fundação "Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel"- Funap enquanto política pública da Secretaria da Administração Penitenciária (SAP). O conhecimento adquirido, a ideia de uma difusão horizontal da informação e a proposta pedagógica empoderadora do Programa levou Bruno a se engajar na educação.

"Foi uma experiência nova, diferente, poder ver um companheiro lecionando, como um professor mesmo. Aquilo trouxe muita motivação. Depois, recebi a oportunidade de ser monitor. Nunca tinha me imaginado como professor, foi um presente", afirma Bruno.

O período como educador, agora no Centro de Progressão Penitenciária de Bauru, mudou a forma de ver o mundo. Não só a interpretação dos outros, mas a maneira como ele se via passou por uma profunda transformação, enxergando potencialidades e culturas antes não percebidas.

"Eu gostava muito de falar, mas foi como monitor do Programa que aprendi a ouvir. Era sempre muito interessante, pessoas de várias culturas, idades, histórias de vida, havia uma troca constante. Ali a gente percebe que todo ser humano tem capacidades", ressalta ele.

A relação familiar também foi fundamental neste processo. Hoje casado há sete anos, diz que temeu perder a esposa quando foi preso em 2013. Questionado, credita 40% de sua recuperação no apoio dela, que apesar de ciente do tráfico praticado pelo marido, sempre aconselhou Bruno a largar o crime ainda antes da prisão. O pai, que desenvolveu Alzheimer depois do cárcere de Bruno, também exerceu forte influência no filho. A doença levou o então reeducando a buscar obras na biblioteca da unidade prisional para entender o problema. E aguçou a urgência de sair para encontrá-lo.

No final do ano passado, Bruno conseguiu a liberdade. Longe dos muros das unidades prisionais, o desafio agora era se reintegrar. Os primeiros contatos em busca de uma oportunidade de emprego foram em vão. As negativas foram várias, em diferentes ramos de atividade. A saída, então, foi trilhar o próprio caminho.

"A ideia inicial era vender frango. Mas eu sou padrinho do filho de um manobrista de estacionamento. Fui visitá-lo e quando observei o espaço, percebi que poderia instalar ali um serviço de lava rápido. Aprendi a enxergar estas oportunidades em um curso de empreendedorismo", afirma.

O tal curso foi ministrado no CPP de Bauru em uma parceria entre a Funap e o SEBRAE-SP, como parte do Programa de Educação para o Trabalho e Cidadania  "De Olho no Futuro". Levando em consideração a dificuldade de inserção de reeducandos no mercado formal de trabalho, práticas de empreendedorismo são incentivadas nas salas de aula espalhadas pelo estado de São Paulo.

Com os conhecimentos adquiridos na formação e com o "espírito empreendedor", Bruno montou uma proposta de negócio e procurou a proprietária do estacionamento para uma reunião. Fez pesquisa de preços na região, calculou o investimento necessário e preparou a papelada para abrir o CNPJ.

"Fui muito franco com ela sobre a minha situação e meu passado. Houve um certo receio no começo, mas ela acreditou em mim e na minha proposta, deu tudo certo."

Hoje, afirma que o empreendimento está caminhando bem. Sua meta é lavar uma média de quatro carros por dia, o que cobriria os custos de operação e chegaria na margem de lucros desejada. Está quase lá, atendendo em média três clientes por dia. Sonha em estabilizar o negócio, solidificar a imagem da empresa na cidade, para dar passos mais largos.

O apreço pela liberdade, o amor da esposa e a saudade do pai. Três motivos, talvez de vários, que levaram Bruno a buscar outras alternativas para viver, a empreender abrindo um lava rápido e a trilhar um caminho diferente da vida toda.